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Arquivos Brasileiros de Cardiologia
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Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC

39166571
00203
10.36660/abc.20240378
Minieditorial
Promoção de Dietas Saudáveis para o Enfrentamento de Doenças Cardiovasculares no Brasil: A Importância das Diretrizes Nutricionais e Políticas Públicas
https://orcid.org/0000-0002-3852-2096
Dias Laís Ferreira 1 2
https://orcid.org/0000-0002-4900-5609
de Carvalho Aline Martins 1
1 Departamento de Nutrição Faculdade de Saúde Pública Universidade de São Paulo, São Paulo Brasil Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, São Paulo – Brasil
2 Instituto do Coração Faculdade de Medicina Universidade de São Paulo São Paulo SP Brasil Instituto do Coração (InCor), Faculdade de Medicina - Universidade de São Paulo, São Paulo, SP – Brasil
Correspondência: Aline Martins de Carvalho • Departamento de Nutrição - Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - Av. Dr. Arnaldo, 715. CEP 01246-904, São Paulo, SP - Brasil E-mail: alinenutri@usp.br
02 8 2024
7 2024
121 7 e2024037828 5 2024
26 6 2024
26 6 2024
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.
Doenças Cardiovasculares
Sistema Alimentar
Prevenção de Doenças
Saúde Pública
==== Body
pmcAs doenças cardiovasculares (DCV) representam um problema de saúde pública de alta magnitude no Brasil, sendo a principal causa de mortalidade no país, com destaque para a doença arterial coronariana como a principal causa de óbitos.1Segundo os dados do Global Burden of Disease, 2021, o padrão alimentar foi responsável por 12% do risco atribuído ao total de mortes por doenças crônicas não transmissíveis na população geral brasileira.2 Tais condições ocasionam prejuízos sistêmicos, não apenas impactando na mortalidade populacional ou reduzindo a expectativa de vida, mas também a incapacidade, gerando dependência de um indivíduo para realizar suas atividades cotidianas.3

Diante deste cenário, a Organização Mundial de Saúde (OMS) defende políticas públicas focadas em estratégias de saúde e atualização regular das diretrizes nacionais de alimentação e nutrição, adaptando-se às mudanças nos hábitos alimentares, nos sistemas alimentares, e nas condições de saúde da população.4,5

No Brasil, há diversas diretrizes nutricionais e programas governamentais direcionados à promoção de dietas saudáveis. O Programa Alimentar Brasileiro Cardioprotetor (DICABR), tem como objetivo promover uma alimentação saudável e adequada para prevenir doenças cardíacas e categoriza os alimentos em grupos identificados pelas cores da bandeira do Brasil, explorando a cultura e a regionalidade alimentar do país. A cor verde representa os alimentos que devem ser consumidos em maior quantidade, como frutas, legumes, verduras, leites e iogurte. A cor amarela, alimentos que devem ser consumidos com moderação, como pães, cereais, tubérculos e alguns tipos de doces caseiros (cocada, goiabada, doce de abóbora). A cor azul representa alimentos que devem ser consumidos em menor quantidade, sendo estes carnes, queijos, ovos, manteiga, leite condensado e creme de leite. Apesar de seu potencial, a adesão e a divulgação entre a população beneficiária foram insuficientes para alcançar os resultados esperados na prevenção de DCV.6

Um estudo transversal realizado com indivíduos em centros de referência cardiovascular no Nordeste do Brasil evidenciou que a população estudada está longe de cumprir as recomendações do DICABR.7 A dieta desses indivíduos foi pobre em fibras e micronutrientes, com alta ingestão de gorduras saturadas e baixo consumo de ácidos graxos insaturados, evidenciando sua baixa qualidade nutricional.

Um outro estudo piloto randomizado e controlado avaliou 117 pacientes ambulatoriais brasileiros com mais de 45 anos de idade com doença cardiovascular aterotrombótica. Apesar da ausência de significância estatística, o estudo ressalta o potencial do consumo de uma dieta saudável e alimentos regionais na modulação de fatores de risco cardiovascular. Ele comparou as diferentes recomendações dietéticas oferecidas aos pacientes e foi possível observar menor pressão arterial e glicemia de jejum nos pacientes que receberam orientações do DICABR, quando comparado a grupos que receberam orientações de diretrizes brasileiras cardiovasculares de 2012.8

É fundamental reconhecer que o consumo alimentar é influenciado por diversos fatores, como acesso, preferências pessoais, disponibilidade de alimentos, renda e cultura. No Brasil, a produção de alimentos é significativa, com 7,8% das terras dedicadas à agricultura e 21,2% para pastagens.9 Isso ressalta a necessidade de examinar as condições que afetam do início ao final desse sistema alimentar, e questionar por que a população enfrenta barreiras para acessar esses alimentos uma vez que o problema não é a quantidade produzida.

Ao formular políticas públicas e diretrizes nutricionais, é essencial considerar as complexidades do sistema alimentar brasileiro e desenvolver estratégias abrangentes que abordem as múltiplas dimensões que influenciam em todas essas etapas. Isso inclui: 1) incentivar a agricultura sustentável e a distribuição eficiente, garantindo a disponibilidade contínua de alimentos saudáveis, 2) facilitar o acesso a alimentos saudáveis através de políticas como subsídios para frutas e vegetais podem tornar esses alimentos mais acessíveis, especialmente para populações em situação de insegurança alimentar,10 3) engajar profissionais de saúde devidamente capacitados para fornecer orientação nutricional individualizada aos pacientes,11 4) promover mudanças nos hábitos alimentares por meio de campanhas de conscientização, educação nutricional e promoção de restaurantes com opções saudáveis, que podem auxiliar na adoção de hábitos alimentares mais adequados.12

Desta forma, a promoção de dietas saudáveis através de diretrizes nutricionais e políticas públicas é fundamental para combater a alta prevalência de DCV no Brasil, sendo possível identificar onde podem ser implementadas ações voltadas para estas doenças. Considerar a implementação, expansão e divulgação de programas como o DICABR, aliadas à compreensão das complexidades do sistema alimentar e à adoção de estratégias abrangentes, pode contribuir significativamente para a redução da incidência de DCV e a melhoria da qualidade de vida da população brasileira.

10.36660/abc.20240378i
Short Editorial
Promotion of Healthy Diets to Address Cardiovascular Diseases in Brazil: The Importance of Nutritional Guidelines and Public Policies
https://orcid.org/0000-0002-3852-2096
Dias Laís Ferreira 1 2
https://orcid.org/0000-0002-4900-5609
Carvalho Aline Martins de 1
1 Brazil Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, São Paulo – Brazil
2 Brazil Instituto do Coração (InCor), Faculdade de Medicina - Universidade de São Paulo, São Paulo, SP – Brazil
Mailing Address: Aline Martins de Carvalho • Departamento de Nutrição - Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - Av. Dr Arnaldo, 715. Postal Code 01246-904, São Paulo, SP - Brazil E-mail: alinenutri@usp.br
Cardiovascular Diseases
Food System
Disease Prevention
Public Health
Cardiovascular diseases (CVD) represent a major public health issue in Brazil, being the leading cause of mortality in the country, with coronary artery disease highlighted as the main cause of death.1 According to the Global Burden of Disease data, 2021, dietary patterns were responsible for 12% of the attributable risk of total deaths from chronic non-communicable diseases in the general Brazilian population.2 These conditions cause systemic harm, not only impacting population mortality or reducing life expectancy but also leading to disability, creating dependency for individuals to carry out their daily activities.3

In this context, the World Health Organization (WHO) advocates for public policies focused on health strategies and the regular updating of national dietary and nutrition guidelines, adapting to changes in dietary habits, food systems, and population health conditions.4,5

In Brazil, there are several nutritional guidelines and government programs aimed at promoting healthy diets. The Brazilian Cardioprotective Dietary Program (DICABR) aims to promote healthy and adequate eating to prevent heart disease, categorizing foods into groups identified by the colors of the Brazilian flag, and exploring the country’s culinary culture and regional diversity. The color green represents foods that should be consumed in larger quantities, such as fruits, vegetables, greens, milk, and yogurt. The color yellow denotes foods to be consumed in moderation, such as bread, cereals, tubers, and certain types of homemade sweets (cocada, guava paste, pumpkin sweet). The color blue represents foods that should be consumed in smaller quantities, such as meats, cheeses, eggs, butter, condensed milk, and cream. Despite its potential, adherence and dissemination among the target population were insufficient to achieve the expected results in CVD prevention.6

A cross-sectional study conducted with individuals at cardiovascular reference centers in Northeast Brazil revealed that the studied population is far from meeting DICABR recommendations.7 Their diet was low in fiber and micronutrients, with high saturated fat intake and low consumption of unsaturated fatty acids, indicating poor nutritional quality.

Another randomized controlled pilot study evaluated 117 Brazilian outpatients over 45 years old with atherothrombotic cardiovascular disease. Despite the lack of statistical significance, the study highlights the potential of consuming a healthy diet and regional foods in modulating cardiovascular risk factors. It compared different dietary recommendations given to patients, and it was observed that patients who received DICABR guidelines had lower blood pressure and fasting glucose levels compared to those who received the 2012 Brazilian cardiovascular guidelines.8

It is crucial to recognize that food consumption is influenced by various factors such as access, personal preferences, food availability, income, and culture. In Brazil, food production is significant, with 7.8% of the land dedicated to agriculture and 21.2% to pastures.9 This underscores the need to examine the conditions affecting the entire food system and question why the population faces barriers to accessing these foods, given that the issue is not the quantity produced.

When formulating public policies and nutritional guidelines, it is essential to consider the complexities of the Brazilian food system and develop comprehensive strategies that address the multiple dimensions influencing all these stages. This includes: 1) promoting sustainable agriculture and efficient distribution, ensuring the continuous availability of healthy foods, 2) facilitating access to healthy foods through policies such as subsidies for fruits and vegetables, making these foods more accessible, especially for food-insecure populations,10 3) engaging properly trained health professionals to provide individualized nutritional guidance to patients,11 4) promoting dietary changes through awareness campaigns, nutritional education, and promoting restaurants with healthy options, which can help in adopting more appropriate eating habits.12

Thus, promoting healthy diets through nutritional guidelines and public policies is crucial to combating the high prevalence of CVD in Brazil, making it possible to identify where actions can be implemented to address these diseases. Considering the implementation, expansion, and dissemination of programs like DICABR, along with understanding the complexities of the food system and adopting comprehensive strategies, can significantly contribute to reducing the incidence of CVD and improving the quality of life of the Brazilian population.

Minieditorial referente ao artigo: Adequação Alimentar de Indivíduos com Doença Cardiovascular Conforme Diretrizes Clínicas no Programa Alimentar Brasileiro Cardioprotetor

Short Editorial related to the article: Dietary Adequacy of Individuals with Cardiovascular Disease According to Clinical Guidelines in the Brazilian Cardioprotective Nutritional (BALANCE)
==== Refs
Referências

1 Oliveira GMM Brant LCC Polanczyk CA Malta DC Biolo A Nascimento BR et al Cardiovascular Statistics - Brazil 2023 Arq Bras Cardiol 2024 121 2 e20240079 10.36660/abc.20240079 38896747
2 Global Burden of Disease GBD Compare: Brasil Internet Washington Institute for Health Metrics and Evaluation 2021 cited 2024 May 22 http://ihmeuw.org/6flc
3 Global Burden of Disease Cardiovascular Burden Estimates 1990 and 2021 Washington Institute for Health Metrics and Evaluation 2022
4 World Health Organization Good Urban Governance for Health and Well-being: A Systematic Review of Barriers, Facilitators and Indicators Geneva World Health Organization 2023
5 World Health Organization Achieving Well-being: A Global Framework for Integrating Well-being Into Public Health Utilizing a Health Promotion Approach Geneva World Health Organization 2023
6 Brasil Ministério da Saúde Alimentação Cardioprotetora Brasília Ministério da Saúde 2018
7 Brito L Sahade V Marcadenti A Torreglosa CR Weber B Bersch-Ferreira AC Rodrigues IG et al Adequação Alimentar de Indivíduos com Doença Cardiovascular Conforme Diretrizes Clínicas no Programa Alimentar Brasileiro Cardioprotetor Arq Bras Cardiol 2024 121 7 e20230705 10.36660/abc.20230705 39166563
8 Weber B Galante AP Bersch-Ferreira AC Torreglosa CR Carvalho VO Victor ES et al Effects of Brazilian Cardioprotective Diet Program on risk factors in patients with coronary heart disease: a Brazilian Cardioprotective Diet randomized pilot trial Clinics (Sao Paulo) 2012 67 12 1407 1414 10.6061/clinics/2012(12)10 23295594
9 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Censo Agropecuário: Resultados Definitivos 2017 Rio de Janeiro Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 2019
10 Castro MA Fontanelli MM Nogueira-de-Almeida CA Fisberg M Food Insecurity Reduces the Chance of Following a Nutrient-Dense Dietary Pattern by Brazilian Adults: Insights from a Nationwide Cross-Sectional Survey Nutrients 2022 14 10 2126 10.3390/nu14102126
11 Brasil Ministério da Saúde Departamento de Promoção da Saúde Estratégia de Saúde Cardiovascular na Atenção Primária à Saúde: Instrutivo para Profissionais e Gestores Brasília Ministério da Saúde 2022
12 Kim Y Rangel J Colabianchi N Food Environments and Cardiovascular Disease: Evidence From the Health and Retirement Study Am J Prev Med 2024 S0749-3797(24)00080-1 10.1016/j.amepre.2024.03.004
