
==== Front
Arq Bras Cardiol
Arq Bras Cardiol
abc
Arquivos Brasileiros de Cardiologia
0066-782X
1678-4170
Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC

00207
10.36660/abc.20240208
Minieditorial
Ingestão de Ácidos Graxos na Prevenção Cardiovascular: A Incessante Busca pela Adequação
https://orcid.org/0000-0002-6812-0936
Maia dos Santos Elisa 1
https://orcid.org/0000-0002-0553-4939
Vilas Bôas Huguenin Grazielle 1 2
1 Instituto Nacional de Cardiologia Departamento de Ensino e Pesquisa Rio de Janeiro RJ Brasil Departamento de Ensino e Pesquisa – Instituto Nacional de Cardiologia, Rio de Janeiro, RJ – Brasil
2 Universidade Federal Fluminense Departamento de Nutrição e Dietética Niterói RJ Brasil Departamento de Nutrição e Dietética – Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ – Brasil
Correspondência: Elisa Maia dos Santos • Instituto Nacional de Cardiologia – Rua das Laranjeiras, 374. CEP 22240-006, Rio de Janeiro, RJ – Brasil E-mail: elisamaia80@gmail.com
07 5 2024
2024
121 3 e2024020826 3 2024
03 4 2024
03 4 2024
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License
Palavras-chave

Ingestão de Alimentos
Ácidos Graxos
Prevenção Secundária
==== Body
pmcAs doenças cardiovasculares (DCV) são atualmente a principal causa de mortalidade em todo o mundo.1 Diversos fatores de risco contribuem para o seu desenvolvimento e dentre os modificáveis os principais estão relacionados a comportamentos de estilo de vida, como tabagismo, atividade física e dieta.2 Em indivíduos em prevenção cardiovascular secundária a promoção de um estilo de vida saudável apresenta-se como uma estratégia para redução da recorrência de eventos.3-5 Contudo, lacunas para adesão a um estilo de vida saudável na prevenção secundária podem estar relacionadas à baixa integração entre a mudança de comportamento e os modelos tradicionais de cuidado ambulatorial.6

A nutrição apresenta um papel central na prevenção primária e secundária das DCV, mas relativamente há pouco tempo os alimentos têm sido considerados como um tratamento, e não somente como um complemento à terapêutica médica e farmacológica estabelecida. A dieta, particularmente, tem um impacto significativo no gerenciamento dos principais de fatores de risco modificáveis para DCV como obesidade, dislipidemia, diabetes e hipertensão.4

Padrões alimentares cardioprotetores, como a dieta do Mediterrâneo, preconizam que a proporção da ingestão de diferentes ácidos graxos pode ser tão relevante quanto às quantidades totais do nutriente7 e na prevenção secundária apresentam efeitos superiores na redução de eventos quando comparados a dietas com redução de gorduras.3 Há muito se sugere que a gordura saturada é prejudicial à saúde cardiovascular, porém, uma metanálise8 sugeriu que a redução da gordura saturada não pareceu afetar a mortalidade total ou a mortalidade por DCV.

O equilíbrio correto do consumo de gordura é fundamental para a saúde cardiovascular, no entanto, tal como acontece com os tipos de carboidratos e proteínas, as fontes e quantidades dessas gorduras necessitam estar balanceadas.9

Gorduras trans e saturadas, encontradas principalmente em alimentos processados, frituras e produtos de origem animal, devem ser consumidas com moderação. Estas gorduras estão associadas a um aumento do risco de DCV e seu consumo deve ser desestimulado.10 Em contraste, as gorduras poliinsaturadas, encontradas em alimentos como óleos vegetais, peixes e sementes, demonstraram ter efeitos protetores contra DCV quando consumidas em quantidades adequadas.11

Maiores reduções nos eventos cardiovasculares incluindo doença coronariana foram observadas em estudos que substituíram a gordura saturada por gorduras poliinsaturadas quando comparadas com gorduras monoinsaturadas, carboidratos ou proteínas.8,12 Assim, parece que a redução da gordura saturada e a substituição por gordura insaturada promove maior benefício cardiovascular, não necessariamente através da redução do consumo de gordura saturada mas considerando que parte desse efeito se refere a fonte dessa gordura como por exemplo laticínios versus ultraprocessados.

Nos resultados do estudo a que se refere este editorial,13 os autores enfatizam a baixa adesão dos participantes às recomendações estabelecidas para o consumo de gorduras. Os autores observaram que nenhum participante aderiu a todas as recomendações de consumo de gorduras de forma simultânea e mais da metade deles não aderiu a nenhuma recomendação. A adesão exclusivamente à recomendação de AGS foi a mais prevalente. Algumas das hipóteses levantadas pelos autores foram o acesso limitado a informações, dificuldade de compreensão das orientações nutricionais além de baixa adesão influenciada por questões econômicas ou pela falta de acesso a alimentos frescos e minimamente processados.13

Neste contexto torna-se urgente a elaboração de estratégias para aumentar a adesão às recomendações nutricionais já estabelecidas pelas diretrizes. Promover educação alimentar e conscientização sobre a importância de escolhas alimentares saudáveis é essencial para incentivar mudanças positivas nos hábitos alimentares da população. Campanhas de saúde pública, consultas nutricionais e programas de educação nas escolas são formas eficazes de disseminar informações sobre nutrição e promover escolhas alimentares mais saudáveis.14

Com o objetivo de oferecer subsídios aos profissionais de saúde da Atenção Primária para que orientem a alimentação de indivíduos portadores de fatores de risco cardiovasculares, o Ministério da Saúde elaborou a Dieta Cardioprotetora Brasileira baseada em alimentos típicos brasileiros.15 Sua característica principal é o desdobramento das recomendações nutricionais das diretrizes em práticas alimentares condizentes com a realidade da população priorizando o fácil acesso aos alimentos e valorizando a cultura alimentar regional através de estratégias interativas e lúdicas oferecendo subsídios para que os indivíduos promovam melhores escolhas alimentares.

Diante da urgência em aumentar a adesão às recomendações nutricionais estabelecidas, é essencial que profissionais de saúde, autoridades governamentais e a sociedade como um todo trabalhem em conjunto para implementar políticas e programas eficazes que promovam a educação alimentar e conscientização, visando a prevenção e controle das DCV e a promoção da saúde cardiovascular da população.

10.36660/abc.20240208i
Short Editorial
Fatty Acids Intake in Cardiovascular Prevention: The Incessant Search for Adequacy
https://orcid.org/0000-0002-6812-0936
Maia dos Santos Elisa 1
https://orcid.org/0000-0002-0553-4939
Vilas Bôas Huguenin Grazielle 1 2
1 Rio de Janeiro RJ Brazil Departamento de Ensino e Pesquisa – Instituto Nacional de Cardiologia, Rio de Janeiro, RJ – Brazil
2 Niterói RJ Brazil Departamento de Nutrição e Dietética – Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ – Brazil
Mailing Address: Elisa Maia dos Santos • Instituto Nacional de Cardiologia – Rua das Laranjeiras, 374. Postal Code 22240-006, Rio de Janeiro, RJ – Brazil E-mail: elisamaia80@gmail.com
Keywords

Eating
Fatty Acids
Secondary Prevention
Cardiovascular diseases (CVD) are currently the leading cause of mortality worldwide.1 Several risk factors contribute to its development and among the modifiable ones, the main ones are related to lifestyle behaviors, such as smoking, physical activity, and diet.2 In individuals undergoing secondary cardiovascular prevention, promoting a healthy lifestyle is a strategy for reducing the recurrence of events.3-5 However, gaps in adherence to a healthy lifestyle in secondary prevention may be related to the low integration between behavior change and traditional models of outpatient care.6

Nutrition plays a central role in the primary and secondary prevention of CVD, but relatively recently, food has been considered as a treatment, and not just as a complement to established medical and pharmacological therapy. Diet, in particular, has a significant impact on the management of the main modifiable risk factors for CVD such as obesity, dyslipidemia, diabetes, and hypertension.4

Cardioprotective dietary patterns, such as the Mediterranean diet, recommend that the proportion of intake of different fatty acids can be as relevant as the total amounts of the nutriente,7 and in secondary prevention, they have superior effects in reducing events when compared to diets with fat reduction.3 It has long been suggested that saturated fat is harmful to cardiovascular health, however, a meta-analysis8 suggested that reducing saturated fat did not appear to affect total mortality or mortality from cardiovascular disease.

The correct balance of fat consumption is fundamental for cardiovascular health, however, as with the types of carbohydrates and proteins, the sources and quantities of these fats need to be balanced.9

Trans and saturated fats, found mainly in processed foods, fried foods, and animal products, should be consumed in moderation. These fats are associated with an increased risk of cardiovascular disease and their consumption should be discouraged.10 In contrast, polyunsaturated fats, found in foods such as vegetable oils, fish, and seeds, have been shown to have protective effects against CVD when consumed in adequate amounts.11

Greater reductions in cardiovascular events including coronary heart disease were observed in studies that replaced saturated fat with polyunsaturated fats when compared with monounsaturated fats, carbohydrates, or proteins.8,12 Thus, it seems that reducing saturated fat and replacing it with unsaturated fat promotes greater cardiovascular benefit, not necessarily through reducing the consumption of saturated fat but considering that part of this effect refers to the source of this fat, such as dairy products versus ultra-processed foods.

In the results of the study referred to in this editorial,13 the authors emphasize the low adherence of participants to the recommendations established for fat consumption. The authors noted that none participant adhered to all fat consumption recommendations simultaneously and more than half of them did not adhere to any recommendation. Adherence exclusively to the AGS recommendation was the most prevalent. Some of the hypotheses raised by the authors were limited access to information, difficulty understanding nutritional guidelines in addition to low adherence influenced by economic issues or lack of access to fresh and minimally processed foods.13

In this context, it is urgent to develop strategies to increase adherence to nutritional recommendations already established by the guidelines. Promoting food education and awareness about the importance of healthy food choices is essential to encourage positive changes in the population’s eating habits. Public health campaigns, nutrition consultations, and school-based education programs are effective ways to disseminate nutrition information and promote healthier food choices.14

Intending to offer subsidies to Primary Care health professionals to guide the diet of individuals with cardiovascular risk factors, the Ministry of Health created the Brazilian Cardioprotective Diet based on typical Brazilian foods.15 Its main characteristic is the breakdown of nutritional recommendations from the guidelines into dietary practices consistent with the population’s reality, prioritizing easy access to food and valuing regional food culture through interactive and playful strategies offering support for individuals to promote better food choices.

Given the urgency to increase adherence to established nutritional recommendations, it is essential that health professionals, government authorities, and society as a whole work together to implement effective policies and programs that promote food education and awareness, aiming to prevent and control diseases. CVD and the promotion of cardiovascular health in the population.

Minieditorial referente ao artigo: Adequação do Consumo de Ácidos Graxos entre Pacientes em Prevenção Cardiovascular Secundária

Short Editorial related to the article: Adequacy of Fatty Acids Consumption Among Individuals in Secondary Cardiovascular Prevention
==== Refs
Referências

1 Oliveira GMM Brant LCC Polanczyk CA Malta DC Biolo A Nascimento BR Cardiovascular Statistics - Brazil 2021 Arq Bras Cardiol 2022 118 1 115 373 10.36660/abc.20211012 35195219
2 Francula-Zaninovic S Nola IA Management of Measurable Variable Cardiovascular Disease’ Risk Factors Curr Cardiol Rev 2018 14 3 153 163 10.2174/1573403X14666180222102312 29473518
3 Delgado-Lista J Alcala-Diaz JF Torres-Peña JD Quintana-Navarro GM Fuentes F Garcia-Rios A Long-term Secondary Prevention of Cardiovascular Disease with a Mediterranean Diet and a Low-fat Diet (CORDIOPREV): A Randomised Controlled Trial Lancet 2022 399 10338 1876 1885 10.1016/S0140-6736(22)00122-2 35525255
4 Brinks J Fowler A Franklin BA Dulai J Lifestyle Modification in Secondary Prevention: Beyond Pharmacotherapy Am J Lifestyle Med 2016 11 2 137 152 10.1177/1559827616651402 30202327
5 Kaminsky LA German C Imboden M Ozemek C Peterman JE Brubaker PH The Importance of Healthy Lifestyle Behaviors in the Prevention of Cardiovascular Disease Prog Cardiovasc Dis 2022 70 8 15 10.1016/j.pcad.2021.12.001 34922952
6 Toledo MT Abreu MN Lopes AC Adherence to Healthy Ways of Life Through Counselling by Health Care Professionals Rev Saude Publica 2013 47 3 540 548 10.1590/s0034-8910.2013047003936 24346567
7 Laffond A Rivera-Picón C Rodríguez-Muñoz PM Juárez-Vela R Viñaspre-Hernández RR Navas-Echazarreta N Mediterranean Diet for Primary and Secondary Prevention of Cardiovascular Disease and Mortality: An Updated Systematic Review Nutrients 2023 15 15 3356 3356 10.3390/nu15153356 37571293
8 Hooper L Martin N Abdelhamid A Smith GD Reduction in Saturated Fat Intake for Cardiovascular Disease Cochrane Database Syst Rev 2015 6 CD011737 CD011737 10.1002/14651858.CD011737 26068959
9 Butler T Kerley CP Altieri N Alvarez J Green J Hinchliffe J Optimum Nutritional Strategies for Cardiovascular Disease Prevention and Rehabilitation (BACPR) Heart 2020 106 10 724 731 10.1136/heartjnl-2019-315499 32098809
10 Niforou A Magriplis E Klinaki E Niforou K Naska A On Account of Trans Fatty Acids and Cardiovascular Disease Risk - There is Still Need to Upgrade the Knowledge and Educate Consumers Nutr Metab Cardiovasc Dis 2022 32 8 1811 1818 10.1016/j.numecd.2022.05.010 35753860
11 Mozaffarian D Dietary and Policy Priorities for Cardiovascular Disease, Diabetes, and Obesity: A Comprehensive Review Circulation 2016 133 2 187 225 10.1161/CIRCULATIONAHA.115.018585 26746178
12 Abdelhamid AS Martin N Bridges C Brainard JS Wang X Brown TJ Polyunsaturated Fatty Acids for the Primary and Secondary Prevention of Cardiovascular Disease Cochrane Database Syst Rev 2018 7 7 CD012345 CD012345 10.1002/14651858.CD012345.pub2 30019767
13 Marcadenti A Machado RHV Santos RHN Kasai CCS Kovacs C Bello A Adequação do Consumo de Ácidos Graxos entre Pacientes em Prevenção Cardiovascular Secundária Arq Bras Cardiol 2024 121 3 e20230487 10.36660/abc.20230487 38597553
14 GBD 2017 Diet Collaborators Health Effects of Dietary Risks in 195 Countries, 1990-2017: A Systematic Analysis for the Global Burden of Disease Study 2017 Lancet 2019 393 10184 1958 1972 10.1016/S0140-6736(19)30041-8 30954305
15 Brasil. Ministério da Saúde Alimentação Cardioprotetora: Manual de Orientações para os Profissionais de Saúde da Atenção Básica Brasília Ministério da Saúde 2018
